domingo, 5 de setembro de 2010

Pessimismo romântico ou realismo neoliberal?

A finalidade deste artigo, aparentemente esquizofrênico, é demonstrar que o amor moderno tem o mesmo valor especulativo das bolsas de valores. Ora, se para os mais entendidos no assunto o amor da escravatura não é igual ao amor romântico inventado pela cavalaria do século XII, e muito menos semelhante ao amor romântico da burguesia, compreenderão com facilidade didática: o amor neoliberal, o amor do “ficar”, é tão rápido e fugaz quanto o capital especulativo das bolsas de valores que se comporta como uma “nuvem de gafanhotos”, oscilando entra a Tailândia e Nova York, Alemanha e Cingapura, Taiwan, Hong Kong, e até no Brasil. A tese é muito simples: o amor é tão amorfo, tão “sincero” quanto a ligação sexual entre Dow Jones (índice da bolsa de Nova York) e Sang Seng (índice de Hong Kong). Ou seja, no amor moderno não há segurança alguma.
Para vocês, amigas e amigos, que andam chorando o amor perdido, não se precisa recorrer ao velho Marx para entender a questão. Mas, vale a pena dizer que mesmo após a queda do Muro de Berlim, a consciência individual ainda é reflexo da consciência social. E a consciência social está dependente das relações de produção de produção e trabalho. Ora, meu caro, se não há estabilidade mais em nada; se os empregos desaparecem e se transformam; se a notícia é verídica pela manhã e inverídica pela tarde; se tudo é volátil, como você pretende que o seu amor seja eterno? Não chore por mais um amor, ele agora é neoliberal, dura pouco, não resiste a duas ou três crises, como na bolsa.
Basta andar pela noite e entenderá a correlação do neoliberalismo e o amor. Os sedentos de amor percorrem dois, três e até mais bares, uns à procura de aventuras de lucro (os mais modernos), e outros em busca de uns relacionamentos estáveis, igual ao tempo dos nossos pais e avós, como se num passe de mágica voltassem a existir. Uns querem “ficar”, outros “estar”. São verso e anverso de uma medalha: a luta contra a solidão.
(...) Por isso mesmo – “Perdidos na Noite Suja” - não se desiludam. Acostumem-se. O mundo mudou. Filhos não amam os pais como antigamente; a solidariedade é antagônica à competência; os jovens brigam com os pais por dinheiro do “shopping” e nem entendem o que é Bolsa de Valores. Muito menos lêem jornais ou assistem a noticiários. O perfil do amor e da família será diferente no século XXI. Desenganem-se de amores eternos, embora possam surgir por escape da lei das probabilidades.
Homens e mulheres estão como especuladores das bolsas. Esperam a fragilidade e a desvalorização cambial dos afetos. Poucos ganham e muitos perdem. E tamanha competição entre homens e mulheres na luta pela felicidade termina em alta de juros: juros da dor.


- Maurilton Moraes - 

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