segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O diabo anda solto.



Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.


- Paulo Leminski -

domingo, 5 de setembro de 2010

Pessimismo romântico ou realismo neoliberal?

A finalidade deste artigo, aparentemente esquizofrênico, é demonstrar que o amor moderno tem o mesmo valor especulativo das bolsas de valores. Ora, se para os mais entendidos no assunto o amor da escravatura não é igual ao amor romântico inventado pela cavalaria do século XII, e muito menos semelhante ao amor romântico da burguesia, compreenderão com facilidade didática: o amor neoliberal, o amor do “ficar”, é tão rápido e fugaz quanto o capital especulativo das bolsas de valores que se comporta como uma “nuvem de gafanhotos”, oscilando entra a Tailândia e Nova York, Alemanha e Cingapura, Taiwan, Hong Kong, e até no Brasil. A tese é muito simples: o amor é tão amorfo, tão “sincero” quanto a ligação sexual entre Dow Jones (índice da bolsa de Nova York) e Sang Seng (índice de Hong Kong). Ou seja, no amor moderno não há segurança alguma.
Para vocês, amigas e amigos, que andam chorando o amor perdido, não se precisa recorrer ao velho Marx para entender a questão. Mas, vale a pena dizer que mesmo após a queda do Muro de Berlim, a consciência individual ainda é reflexo da consciência social. E a consciência social está dependente das relações de produção de produção e trabalho. Ora, meu caro, se não há estabilidade mais em nada; se os empregos desaparecem e se transformam; se a notícia é verídica pela manhã e inverídica pela tarde; se tudo é volátil, como você pretende que o seu amor seja eterno? Não chore por mais um amor, ele agora é neoliberal, dura pouco, não resiste a duas ou três crises, como na bolsa.
Basta andar pela noite e entenderá a correlação do neoliberalismo e o amor. Os sedentos de amor percorrem dois, três e até mais bares, uns à procura de aventuras de lucro (os mais modernos), e outros em busca de uns relacionamentos estáveis, igual ao tempo dos nossos pais e avós, como se num passe de mágica voltassem a existir. Uns querem “ficar”, outros “estar”. São verso e anverso de uma medalha: a luta contra a solidão.
(...) Por isso mesmo – “Perdidos na Noite Suja” - não se desiludam. Acostumem-se. O mundo mudou. Filhos não amam os pais como antigamente; a solidariedade é antagônica à competência; os jovens brigam com os pais por dinheiro do “shopping” e nem entendem o que é Bolsa de Valores. Muito menos lêem jornais ou assistem a noticiários. O perfil do amor e da família será diferente no século XXI. Desenganem-se de amores eternos, embora possam surgir por escape da lei das probabilidades.
Homens e mulheres estão como especuladores das bolsas. Esperam a fragilidade e a desvalorização cambial dos afetos. Poucos ganham e muitos perdem. E tamanha competição entre homens e mulheres na luta pela felicidade termina em alta de juros: juros da dor.


- Maurilton Moraes - 

Não tem preço.



Depois foi ao Hyde Park e deitou-se na grama quente,
abriu um pouco as pernas para o sol entrar. Ser mulher
era uma coisa soberba. Só quem era mulher sabia.
Mas pensou: será que vou Ter que pagar um preço
muito caro pela minha felicidade? Não se incomodava.
Pagaria tudo que tivesse de pagar. Sempre pagara e
sempre fora infeliz.

 - Clarice Lispector -

"A solidão o cerca e o abraça, sempre mais ameaçadora, asfixiante, opressiva, terrível deusa e selvagem mãe das paixões - mas quem sabe hoje o que é solidão... Uma coisa é o abandono, e outra a solidão; eis o que aprendeste agora! Que entre os homens serás sempre selvagem e estranho mesmo que te amem[...] Vens... ouço−te. O meu abismo fala.[...] A cada alma pertence um mundo diferente; para cada alma, toda outra alma é um além−mundo."

Friedrich Nietzsche.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

About me.

Sou de gêmeos. Um signo de ar, mutável. Eu me distraio com tudo e você não imagina a facilidade que eu tenho de viajar sem sair do lugar. Mas nem tudo que nasceu comigo, ficou. Algumas situações amarraram meus pés no chão, fazendo com que eu me agarrasse firmemente à realidade. Paixões platônicas, Lindo, são para crianças. Foi isso que eu repeti silenciosamente, até me convencer. E deu certo. Quando começo a me iludir por alguém, racionalizo tudo: Por que eu me interesso tanto por ele? Por que ele se interessaria por mim? Por que a gente daria certo? E funciona! Esqueço com impressionante rapidez do meu interesse. Ah, as coisas ficam tão mais fáceis desse jeito! Você não sabe, Menino, mas eu machuco as pessoas. Eu faço com que elas se apaixonem por mim como um desafio, como uma criança testando seus limites. Então enjoo do meu jogo e não dou explicações. Destruo corações que se abrem pra mim com tanto esforço, na esperança de terem encontrado alguém legal. Ainda dá pra você fingir que não me viu. Se der tempo, se você tiver o raro dom de controlar seu coração, se o sentimento não estiver suficientemente forte à ponto de você se prender, fuja. Se você nem ao menos me diferencia das outras pessoas que te cercam, como eu imagino, permaneça assim. Não se aproxime, não se apaixone. Não me escolha como a eleita dos seus dias. Escolha uma dessas meninas com perfis de orkut todos iguais, que gostam de msn, que querem ser pedidas em namoro. Essas meninas que choram e sofrem, depois esquecem e ficam submissas. Dessas que conseguem se apaixonar, se apegar, amar. Eu não sou assim. Eu sou fria e jogo com as pessoas - não por maldade, mas porque inconscientemente me envolvo com brincadeiras, que na verdade são vidas de gente que ama e sofre de verdade. É, procure a saída mais próxima e parta de vez para uma relação humana, comum, sólida, eterna na sua duração e cheia de palavras e promessas de carinho. Eu tenho aflição de toque e sou incapaz de jurar amor sem pensar e ter certezas.

- Verônica H. - 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Do lado de cá.


Tu olharás, de noite, as estrelas. Onde eu moro é muito pequeno, para que eu possa te mostrar onde se encontra a minha. É melhor assim. Minha estrela será então qualquer das estrelas. Gostarás de olhar todas elas... Serão, todas tuas amigas. E depois, eu vou fazer-te um presente...

- Antoine de Saint-Exupéry -

Tem explicação?

"Meu irmão, a gente tem que descobrir maneiras
— sejam quais forem — de ficarmos fortes."

... dentro daquela saudade que não ia embora por mais que o tempo passasse e dentro dele, mesmo sem lembrar, apenas agindo, todos os dias eu acordava e tomava banho, escovava os dentes e fazia todas essas coisas rotineiras, igual a alguém que aos trancos, mecanicamente, continua a viver mesmo depois de ter perdido uma perna ou um braço que, embora ausentes, ainda doem - sem poder evitar, inesperadamente, sem querer evitar, outra vez lembrei de Pedro.